segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mais deduções baseadas em paradigmas antiquados

Caros leitores, primeiramente, quero, em nome do grupo, pedir desculpas pelo grande tempo sem publicações. Infelizmente, todos os integrantes estiveram excessivamente ocupados nos últimos meses, o que gerou a demora. Mas prometemos que isto não se repetirá.

Reiniciando as atividades, venho falar sobre o problema da confiança excessiva em velhos paradigmas. Em verdade, este erro se aplica também àqueles não tão velhos. É importante duvidar, meus caros. E a experiência mostra isto.
No ano passado, foi publicado um artigo, cuja referência se encontra ao fim deste texto, que analisa o conteúdo protéico de astrócitos após a utilização de morfina. Basicamente, uma cultura pura de astrócitos foi estabelecida e, durante 5 dias, foram aplicados 10 µM de morfina às células. O proteoma foi realizado através de eletroforese bidimensional combinada com nano-cromatografia líquida acoplada à espectometria de massa quadrupolo (armadilha de íons).
A análise dos géis revelou a alteração em 18 spots, que após analisados, foram identificados como nove diferentes proteínas. Houve aumento da expressão de chaperonas, proteínas do citoesqueleto e ligadas à biosíntese. Várias destas alterações já tinham sido relatadas quando houve estudo dos tecidos e as conclusões anteriores é que estas seriam variações neuronais. Certamente, o vício em diversas substâncias está ligado ao sistema nervoso, mas a aceitação do paradigma de que neurônios são responsáveis pelos processos complexos, principalmente ligados ao comportamento, culminou em um erro (e, certamente, em vários outros ao longo da pesquisa do sistema nervoso).
Além disso, foi demonstrado por Watkins e colaboradores (2007) que a indução de sintomas de abstinência é inibida na presença de AV411, um conhecido inibidor da atividade glial.

Mais uma vez, as células da glia surpreendem com participação considerável em processos considerados complexos e, normalmente, ligados à atividade neuronal.
Quantos erros não devem ter acontecido na história da ciência pela falta de dúvida?! Esta que deveria ser uma das maiores virtudes de um cientista: duvidar!

Referência:
The Proteomic analysis of primary cortical astrocyte cell culture after morphine administration; 2009 - Suder et al.; journal of proteome research
http://pubs.acs.org/doi/pdf/10.1021/pr900443r

Publicado por Rafael Campos

Um comentário:

  1. Fazer ciência é buscar a verdade...
    Se não podemos alcançar a verdade definitiva e pura, vamos lampejando o que tudo nos leva a crer que seja a verdade "mais adequada", não é?
    A ciência está aí para ser testada, a todo momento... por isso escrevemos o enfadonho item "Material e métodos"!
    Fiz assim, usando isso e aquilo... faça você aí, e veja se consegue o mesmo!
    Poucas coisas (fiquei com medo de dizer "nada") são tão óbvias que dispensam a dúvida...

    Na verdade acho que, em geral, lemos pouco e discutimos menos ainda... e é dessas situações que nascem as dúvidas, as questões ainda não pensadas, as perguntas mais inusitadas...

    À dúvida!!!

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