Bem, dando início, enfim, a nossas discussões, apresento a vocês uma revisão da nature neuroscience do ano de 2010 feita por Deng e colaboradores intitulada "new neurons and new memories: how does adult hippocampal neurogenesis affect learning and memory?". Não sei se foi uma boa escolha, pois não se trata de um paper contemplado por minha admiração. Por outro lado, acredito que trate de algo polêmico e que poderá gerar bastante discussão. Basicamente, a revisão fala sobre a formação da memória.
Ao contrário do que muitos pensam, algo próximo de nada está bem definido nesta área. A maior parte dos livros-texto apresentam o neurônio como o responsável único por esta habilidade cognitiva. Mas a verdade é que não sabemos sequer se esta célula é a principal responsável. Particularmente, vejo o sistema como uma grande caixa-preta conectando dois neurônios, um aferente outro eferente. O autor deste paper, entretanto, assume, como a maioria, que a célula em questão é a própria caixa, uma visão reducionista e preconceituosa, na minha opinião.
Há duas regiões de destaque quando se fala de neurogênese no encéfalo do adulto: a zona subventricular (SVZ) e a zona subgranular (SGZ). Ao contrário do que se pensava até pouco tempo atrás, há formação de novos neurônios em uma taxa considerável no sistema nervoso central (SNC). A neurogênese da SGZ é especialmente importante quando tratamos de memória porque esta região é localizada próxima ao giro denteado, sendo este uma parte importante do hipocampo, uma estrutura da qual alguns tipos de memória, como a episódica e a espacial, dependem. Neurônios originados na SGZ frequentemente migram para o giro denteado do hipocampo.
Inicialmente, os autores propoem uma série de evidências da importância da neurogênese na cognição. Foi observado, por exemplo, que este fenômeno pode mediar a eficácia de anti-depressivos. Além disso, ela é regulada por inúmeros fatores comportamentais e é associada ao estado cognitivo do animal. Animais em ambientes enriquecidos apresentam maior neurogênese que animais em ambientes com poucos estímulos. Atividade física voluntária, como corrida em esteira, também a aumenta, e é conhecido o fato de que esta atividade incrementa a capacidade cognitiva em alguns animais, como ratos e camundongos.
Entretanto, apesar do autor usar estes fatos como evidências da importância do fenômeno estudado na cognição, algumas considerações podem ser feitas. Anti-depressivos agem regulando o uptake sináptico, geralmente. O aumento do número de neurônios significa também aumento do número de sinapses. Além disto, foi observado que neurônios imaturos advindos deste processo apresentam alta excitabilidade. Ou seja, há um aumento do número de alvos e o efeito, caso a droga não esteja em excesso, pode ser menor e, portanto, não ligado diretamente ao fenômeno. Quanto ao aumento da neurogênese devido ao incremento de atividades cognitivas há uma explicação plausível. A atividade neuronal estimula a neurogênese, fato relatado pelo próprio autor da revisão, o que pode ser um efeito de demanda-produção. Ou seja, o aumento da atividade neuronal estimula a produção de novos neurônios, mas não significa que seja devido ao aumento da necessidade de locus para armazenamento, mas, possivelmente, pelo aumento de vias de transporte. Considerando a proposta da caixa-preta, a neurogênese pode não estar ligada diretamente à formação de memória.
Outras evidências estão ligadas à sobrevivência de novas DGCs (células do giro denteado). Observou-se, in vitro, que a sobrevivência destas células é maior quando há atividade sináptica de células vizinhas e é proporcional à intensidade dos sinais. Os autores relatam então diversos treinamentos cognitivos, como o labirinto aquático de morris, associados à atividade hipocampal como sendo fatores de aumento de sobrevivência de novas DGCs. Eles afirmam serem estas evidências da participação destas células na cognição, o que me parece uma afirmação perigosa. A atividade local, por si só, já explicaria o aumento da sobrevivência. Sendo assim, não importa se é uma atividade cognitiva ou outro estímulo qualquer, a neurogênese será estimulada. Por isso, não se pode ligar o evento celular ao comportamental, mas apenas ao fisiológico.
O gráfico de performance em labirinto aquático de Morris é bem característico. É um gráfico cuja a ordenada é a latência, tempo médio levado pelo animal para atingir a plataforma oculta, e a abscissa é o tempo em dias. Os animais começam com alta latência, a qual diminui drasticamente ao longo dos primeiros dias e, posteriormente, a reta tende à inclinação 0. Os autores relatam um evento interessante, mas, talvez, previsível. O número de apoptoses no giro denteado aumenta quando a reta tende à estabilidade e a neurogênese diminui. O hipocampo tem sido visto como essencial no processo de formação da memória, mas, aparentemente, não é o locus de armazenamento. A grande atividade hipocampal durante a formação da memória aumenta a neurogênese. Mas quando a memória está formada e há pouco incremento da performance, há pouca formação de memória, havendo quase apenas recuperação da informação. Sendo assim, a atividade hipocampal diminui e há aumento da apoptose e diminuição da neurogênese.
Normalmente, estudos sobre a neurogênese são realizados de duas formas: ou as novas células são marcadas com anti-corpos específicos para células recém-formadas, estudo este que visa verificar o aumento da neurogênese em função de algum fator; ou as novas células são especificamente eliminadas para se verificar o efeito da ausência de neurogênese. Há várias técnicas para isto, todas com o mesmo resultado final e todas com efeitos colaterais consideráveis. Os autores citam diversos trabalhos realizados com métodos de bloqueio distintos, mas com métodos de análise comportamental semelhantes. Os testes apresentaram resultados discrepantes. Por exemplo, dois grupos distintos utilizaram métodos de depleção celular diferentes, mas ambos específicos, e fizeram o mesmo teste: o labirinto aquático de Morris. Era esperado que ambos apresentassem o mesmo resultado, mas não foi o que aconteceu. Em um caso, a memória espacial foi prejudicada, enquanto no outro não. O que me fez questionar se não seriam os efeitos colaterais do teste em que houve prejuízo da cognição os responsáveis por este fato e não o bloqueio da neurogênese subgranular. O mesmo foi observado em testes de condicionamento contextual de medo e outros relacionados ao hipocampo.
Apesar de toda esta controvérsia, os autores concluem que os resultados sugerem consistentemente a participação destas células recém-formadas na memória e aprendizado.
Duas perguntas surgiram em minha mente logo após a leitura: porque um trabalho absurdamente controvérsio e com uma conclusão sem fundamentos concretos foi publicada em um periódico de altíssima qualidade?! E porque tantos pesquisadores se fecham em suas teorias reducionistas e simplesmente ignoram todas as demais possibilidades?!
A minha conclusão particular é que pessoas assim atrasam o progresso da ciência apresentando visões unilaterais de figuras tão multifacetadas que se aproximam de uma conformação circular. Acredito que a desculpa de "facilitar o conhecimento" não cabe neste nível. Esta sobrevive apenas para os malditos livros-texto, que nos enganam não apenas no período pré-graduação, como ao longo desta. Passou da hora de transmitirmos a verdade. Mesmo que ela seja temporária...
Postado por Rafael Campos
Realmente Thomas Kuhn estava certo ao dizer que a ciência segue paradigmas. Mesmo em uma área onde o pensamento livre e inovador deveria ser a coisa mais valorizada, vemos um monte de ovelhas seguindo paradigmas sem nem pensar no que estão fazendo.
ResponderExcluirChego a conclusão que as pessoas não gostam de pensar e assumir o risco de suas próprias ações, afinal é muito mais cômodo seguir a opinião dos outros... E infelizmente a área acadêmica não é exceção!
Vivemos um tempo em que hipóteses são vendidas como teorias e discussões nascentes viram conclusões fetais e mal formadas...
ResponderExcluirTrabalhos controversos devem sim ser trazidos à tona, mas para inspirar outros trabalhos que tentem resolver as questões com outras abordagens, e não para serem tomados como conclusão!
Pensar fora da caixa sempre foi algo perigoso... não fazem mais fogueiras com os que sugerem outras possibilidades, mas existem formas modernas de fazer com que as coisas permaneçam do jeito como estão. Mais que assumir o risco de suas próprias ações, como o Leo destacou, creio que haja o receio de não ser aceito - e não ser aceito, hoje em dia, significa não ser financiado... E, um pouco além, existe ainda o crivo das publicações...
Tem razão. Expressei-me mal em um ponto. Quando mencionei sobre o trabalho ser controvérsio e ser publicado, a crítica foi no sentido de ser publicado com a conclusão q os autores tiveram.
ResponderExcluirCada vez mais eu acho que o fato de uma publicação ser aceita depende muito mais do "peso" dos nomes dos autores e de quem são os revisores ao invés da qualidade do trabalho...
ResponderExcluirE concordo com a Amanda: Hoje em dia a necessidade de conseguir financiamento e publicar é o que move a ciência, no entanto ainda existe um grande preconceito de idéias que não sigam o paradigma da sua área.