Quando se trata de reprodução, quase sempre estamos falando não de um processo harmonioso e cooperativo entre os sexos, mas sim de um conflito de interesses entre machos e fêmeas em que cada um tenta obter o máximo possível de ganhos com o menor custo. As fêmeas, o recurso limitante em termos de reprodução para várias espécies, em muitos casos são promíscuas, levando a uma competição entre os machos e também culminando na evolução de mecanismos para conter a promiscuidade das fêmeas e aumentar suas chances de passar seus genes para a frente.
Assim, um macho pode tentar estimular a parceira a receber mais espermatozoides seus do que de outros ou ainda tentar se livrar dos espermatozoides dos rivais. Em algumas espécies de libélula, o pênis tem um bulbo com longas cerdas que os machos usam para retirar os esperma do interior da fêmea antes de depositar o seu. Nos zangões, o órgão genital que é arrancado ao final da cópula e fica enterrado no corpo da fêmea funciona como uma espécie de tampão que impede ou retarda um novo evento de cópula.
Já havia sido constatado que nas Drosophilas, um organismo modelo para a Genética, as fêmeas ficam menos receptivas e aumentam sua produção de ovos durante pelo menos cinco dias após o acasalamento. De modo impressionante, quando o fluido seminal de machos era injetado em fêmeas virgens, elas exibiam as mesmas respostas, só que por um ou dois dias. Assim, a hipótese era a de que algo no fluido seminal do macho poderia modular a atividade neuronal que controla o comportamento após a cópula no sentido de impedir o acasalamento da fêmea com um segundo macho.
Tendo isso em mente, uma equipe de pesquisadores austríacos triou o genoma da mosca em busca de genes que atuassem sobre neurônios para controlar a colocação de ovos. Eles identificaram cerca de uma centena de genes e, entre eles, um receptor de peptideos chamado CG16752. Outras pesquisas identificaram um peptídeo com 36 resíduos de aminoácidos no fluido seminal dos machos de Drosophila, chamado de sex peptide (SP), como sendo o produto proteico responsável por causar alterações pós-acasalamento nas fêmeas.
Quando fêmeas cujo gene para o receptor do sex peptide era silenciado por meio de RNA interferente eram cruzadas com machos normais, elas colocavam poucos ovos, se acasalavam novamente com frequência e não rejeitavam ativamente o segundo macho, o mesmo comportamento exibido pelas fêmeas com o receptor funcional que eram acasaladas com machos cujo gene para SP havia sido silenciado.
Este mecanismo desenvolvido nos machos para reduzir as chances de um novo acasalamento é particularmente interessante devido ao seu uso potencial no controle de insetos, mas outras possibilidades vêm à mente... se conseguíssemos sintetizar um peptídeo como esse para homens e implantar neles receptores para este “peptídeo da fidelidade”...
Postado por Amanda Oliveira
Referências
Chapman, T; Bangham, J; Vinti, G; Seirfried, B; Lung, O; Wolfner, M.F; Smith, H.K; Partridge, L. The sex peptide of Drosophila melanogaster: Female post-mating responses analyzed by using RNA interference. PNAS, v.100, n.17, pp.9923-8, 2003.
Kubli, E. Sex-peptides: seminal peptides of the Drosophila male. Cell. Mol. Life Sci., v.60, p.1689–1704, 2003.
Yapici, N; Kim, Y; Ribeiro, C; Dickson, B.J. A receptor that mediates the post-mating switch in Drosophila reproductive behavior. Nature, V.451, 2008.
Pode ser uma pena para as mulheres, mas isso seria evolutivamente desfavoravel....
ResponderExcluirBrincadeiras a parte, gostaria de um esclarecimento: o macho secreta o sex peptide ou apenas estimula sua producao? A pergunta e pelo fato de que nao vejo qualquer coisa de estranho na selecao positiva de mecanismos que aumentassem a probabilidade de reproducao, mas que diminuissem por acao "cruzada", ja e outra historia. Nao sei qual a porcentagem de sucesso da copula entre Drosophila, mas para qualquer fator abaixo de 100%, ao meu ver, seria interessante o aumento do numero de copulas, o que, alias, tambem aumentaria a variabilidade. Enfim, meu interesse esta em um fato que achei incrivel: se a secrecao de peptideo for realizada pelo macho, e este age no SNC da femea para reduzir o apetite sexual, eh o primeiro caso que vejo de coevolucao de um modulador comportamental, e seu receptor, evolutivamente prejudicial que age no individuo do sexo oposto. Humanos por exemplo, diminuem a promiscuidade da femea atraves do sexo. O orgasmo e um modulador negativo do apetite sexual (sem falar de condicionamento...), mas, neste caso, o que ocorre e estimulacao de producao de moduladores na femea, nao secrecao pelo macho, isto e, ha um custo para o macho: a habilidade de fazer a femea atingir o orgasmo. Para Drosophila, nao vi vantagens nem para a femea nem para a especie em manter este mecanismo. Porque o receptor existiria entao?! Sera que ha alguma funcao distinta para ele e sua acao como modulador comportamental e uma sobreposicao funcional?
Bem, voltando as brincadeiras, nao podia deixar de mencionar: manter a fidelidade feminina sem ter q se preocupar com o orgasmo delas nao seria nada mal...
esqueci de mencionar: desculpem-me, mas ainda nao resolvi o problema dos acentos no meu pc :p
ResponderExcluirEi, rafa, por que será que eu não gostei das suas brincadeiras??? rs...
ResponderExcluirAmandita, muito interessante o post! Fiquei a lembrar da seleção espermática na espécie humana... Nossos machos são bem espertinhos, não acha? Pena que nós mulheres somos um pouco mais espertas, a ponto de (se quisermos), darmos uma escapadinha e eles nem perceberem, meses depois, que 10% dos filhos não são deles... :)
Bom, poderia ser desfavorável para os machos, mas como estratégia para aumentar a diversidade genética da progênie, seria muito bom as fêmeas copularem com vários machos e não o contrário!! E estudos australianos mostraram que mães promíscuas têm filhotes com mais chances de sobrevivência (estamos falando de marsupiais :p), por causa da competição entre os espermatozóides!
ResponderExcluirRafa, de fato o sex peptide é transferido para a fêmea durante a cópula pelo esperma do macho. Na verdade, existem também outros componentes no fluido seminal (as chamadas accessory fluid proteins, Acps) que interferem na produção de ovos e na receptividade da fêmea após o acasalamento, mas o SP parece ser o principal agente nesta resposta.
Quanto aos benefícios para o macho, eles são claros: a transferência de SP aumenta o sucesso reprodutivo absoluto do macho, ou seja, ela aumenta o número de descendentes produzidos antes de um novo acasalamento da fêmea com a qual ele copulou. No entanto, o SP tem reconhecida implicação no aumento de custos de reprodução para as fêmeas. Tem sido documentada influência da ação do SP até mesmo em sua longevidade.
Como você bem comentou, a seleção do receptor nas fêmeas é que chama a atenção. Trabalhos mostram a ativação do receptor do SP em neurônios fru nas fêmeas (convém lembrar que o gene fruitless é associado a comportamento sexual em Drosophila). Um dos papers (Wigby e Chapman, 2005) fala que inicialmente, a seleção natural pode ter selecionado a sensibilidade nas fêmeas ao SP para modular a produção de ovos e a receptividade por causa do aumento do sucesso reprodutivo dos machos em detrimento do das fêmeas. Se for assim, esta guerra molecular é consistente com um cenário de seleção sexual e conflito de interesses de reprodução, significando que tal cenário deve passar por mudanças evolutivas relativamente rápidas – um prato cheio para a observação de mecanismos de conflito em coevolução!
E este mecanismo não é exclusivo das Drosophilas – ele é bem conservado entre várias espécies de insetos. É que a Drosophila é o “Frankenstein” da Genética!!
Quanto aos humanos, meu caro Rafa, lamento não poder discutir muito... taí uma espécie que entendo pouco! Mas eu acho bem difícil discutir sobre comportamento humano de forma geral por causa da influência da cultura – que pode ser dito então sobre o comportamento sexual, que carrega um forte viés cultural, com todos os seus tabus?
E, respondendo à sua última brincadeirinha: como se os homens se importassem muito com o orgasmo das parceiras.......
huauuahau. Qnto odio em seu coracao, maninha! hauuahau. Mas fale por outros homens. Eu, pelo menos, acho isso muito importante e faco tudo q for necessario p o prazer das minhas parceiras. De qualquer maneira, minha intencao nao era discutir comportamento humano. Apenas usei como exemplo este fato para demonstrar q ha uma vantagem para a femea neste caso. Entretanto, a menos que o receptor do sex peptide tivesse alguma outra funcao, nao vejo o prq da existencia dele. E uma dsvantagem para a especie e para a femea. So o macho ganha com isso. Por isso vejo tanto misterio em torno do seu surgimento. O q imagino q deve ter ocorrido e algo semelhante ao q ocorre entre sistema nervoso e imune. Diversas interacoes entre moleculas e seus receptores tem funcoes distintas nos dois sistemas. Por exemplo, o MHC tem funcao fundamental na apresentacao d antigenos, mas descobriu-se a expressao de MHC em neuronios. Obviamente, nao estao ali para a mesma funcao. Casos semelhantes ja foram observados tbm para receptores de insulina. Enfim, deve existir alguma funcao oculta do receptor d sex peptide q seria um bom alvo para estudos q permitiriam entendimento melhor a respeito da evolucao nao apenas d Drosophila, mas do comportamento sexual de maneira geral. Concordam?
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ResponderExcluirConcordo sim! Realmente é uma boa hipótese...
ResponderExcluirE, só para esclarecer, meu último comentário não foi uma queixa pessoal.. há tempos não sinto ódio em meu coraçãozinho! É só um levantamento de fatos vindos de algumas conversas de teor feminino com seres humanos femininos... :D